No passado dia 25, tivemos a sorte de receber, nas nossas instalações, Paulo Moura, jornalista do Público e professor de Jornalismo Literário na Escola Superior de Comunicação Social, em Lisboa. Durante a conferência, foi possível falar dos mais diversos assuntos e ouvir algumas das mais incríveis histórias pelas quais Paulo Moura passou. Apesar da divagação, o assunto abordado (pelo menos no início desta conversa) foi o jornalismo literário.
O jornalismo literário surgiu na conturbada década de 60, nos EUA, sob a influência de diversos escritores realistas; ficou inicialmente conhecido como "Novo Jornalismo". Este novo estilo apareceu num momento em que os leitores da imprensa procuravam ler algo sobre a realidade mais profundo, que fizesse pensar. A imprensa atravessava também uma crise, que em muito conseguiu ultrapassar graças a esta nova tendência.
Contudo, à medida que alguns dos "Novos Jornalistas" foram conquistando o sucesso e a fama, o jornalismo literário foi entrando em declínio, devido a alguns excessos, principalmente no que toca a manipulação dos factos. Estes jornalistas entusiasmaram-se de tal forma que acabaram por cair no erro de ficcionar as suas histórias.
No entanto, por volta da década de 80, o jornalismo literário redime-se com uma vaga de jornalistas preocupados em relatar de facto a realidade, sem modificar ou acrescentar nada às histórias.
No chamado jornalismo convencional, a história é bastante básica, com personagens bidimensionais, sem profundidade, ou seja, a realidade é tratada de forma um pouco superficial. As histórias concentram-se geralmente em histórias comuns, com as quais os leitores se podem identificar, que servem como exemplo para a maioria.
O jornalismo literário, por outro lado, procura relatar a realidade com alguma profundidade, retratando histórias que possam, ao seu jeito, ser únicas. No fundo, o jornalista literário é um romancista que conta a sua história, divergindo apenas na veracidade dos factos. Se o romancista ficciona, o mesmo não se pode dizer do jornalista literário. Outro aspecto de distinção entre o jornalismo tradicional e literário, é que este último não segue a regra da pirâmide invertida.
Escrever uma peça jornalística literária não é de todo fácil. O jornalista literário, tal como o tradicional, tem que, antes de mais nada, recolher informação. Mas, mais do que isto, precisa de se inserir e de conhecer melhor as personagens, de se aproximar da história que vai contar. No fundo, é um observador nato, atenta a realidade de com minúcia. O jornalista desta especialidade encontra sempre uma história, mesmo onde aparentemente não existe nenhuma.
Na forma de escrita, o jornalismo literário recorre a muitos recursos e técnicas utilizados habitualmente pelos escritores, visando enriquecer o texto. O jornalista pode optar, por exemplo, por recriar conversas, através da transcrições de diálogos, ao invés da simples utilização de citações. Pode também "brincar" com o tempo, já que a narrativa não precisa, neste subgénero jornalístico, ser linear. Fazer jogos com o tempo permite dar à narração dinamismo e criar um certo suspense, de forma a manter o leitor atento e interessado. Nesse sentido, não é necessário contar ao leitor tudo o que há para contar mal a peça se inicie. A descrição de cenários é também muito utilizada no jornalismo literário.
Um facto interessante é que se pode escrever os pensamentos das personagens. Um jornalista literário foi confrontado com a pergunta de como poderia saber o que ia pela cabeça das pessoas, ao que ele respondeu: perguntando-lhes.
O próprio jornalismo literário englobe uma série de subgéneros que vão da biografia, à crónica de viagem, passando pelos ensaios pessoais, entre outros.
No fundo, o jornalismo literário é, tal como Paulo Moura afirmou, «um jornalismo de autor, onde este desenvolve o seu próprio estilo». Trata-se de uma forma mais artística e profunda de fazer jornalismo.
Paulo Moura proporcionou-nos uma aula completamente diferente e muito interessante, onde uma empolgante conversa substitui por completo aquilo que poderia ser uma conferência sem graça. Porque mais do que falar do jornalismo jornalístico, Paulo Moura contou-nos a sua experiência, as suas histórias...
A este propósito, convido-vos (para quem não conhece) a visitar o Repórter à Solta, o blogue de Paulo Moura.
